PUBLICIDADE DA PELE

 

Era verão e os turistas estavam aos molhes à procura não de paisagens idílicas, mas de fazerem compras desenfreadas. A mulher de ancas redondas, pernas largas e busto avultado deambulava devagar e sedutoramente pela baixa da cidade de Ponta Delgada onde ocasionalmente fazia uma pose elegante, virando o corpo com os braços lânguidos. O corpo todo da Glória, com exceção da sua face bonita, estava coberto com anúncios publicitários luminosos que mudavam de cor rapidamente para atrair o olhar, competindo com as demais superfícies de ambos os lados da rua Machado dos Santos em Ponta Delgada. A uns vinte metros de distância da Glória, estava um casal a fazer o mesmo, com anúncios publicitários diferentes, ganhando em número o que lhes faltava em extensão de pele. Por todos os cantos e ruas da cidade de Ponta Delgada podiam-se encontrar pessoas, cobertas de tatuagens publicitárias a contenderem-se umas com as outras para os olhares cobiçosos de quem passava. Poucos se sentiam atraídos pelos corpos que se moviam, mas sim pelas ofertas especiais que estavam a ser apresentadas.

Desde há décadas que o carácter da cidade tinha mudado. Tendo sido uma cidade meio adormecida no embalar de séculos, expandiu significativamente a sua área geográfica e comercial, tornando-se numa meca de compradores compulsivos, oniomaníacos, que alimentavam a voracidade do mercantilismo desenfreado. As boutiques de luxo competiam com os centros comerciais, enquanto, na periferia de Ponta Delgada, se multiplicavam as lojas de coisas baratas e de mau gosto para as pessoas com menos meios. Cada superfície da cidade estava coberta de publicidade, com os vídeos a concorrerem com os cartazes, com as vozes a aliciarem clientes e com as peles publicitárias.

O Corvo era um artista de tatuagem que se dedicava a criar tatuagens de publicidade usando tecnologia antiga que consistia em aplicar uma película fina e flexível sobre a pele onde estavam incorporadas elétrodos flexíveis e um díodo orgânico emissor de luz. Uma das suas melhores clientes era a Glória, uma das pessoas que usava o seu corpo quase todo como dispositivo de publicidade.

Em vez de comprarem uma peça de roupa com um logo, o que antigamente era considerado na moda, as pessoas arrendavam a sua pele e recebiam uma quantia mensal para caminharem pelas ruas, em centros comerciais, ou por supermercados a publicitarem companhias ou artigos. A Glória era das que tinham mais sucesso financeiro porque ela era uma mulher particularmente bonita, levava o dia todo a andar devagar e a posar para atrair clientes e não tinha receio de se expor ao público meia nua. Ela tinha o corpo largo coberto de tatuagens e estava arrendada a uma variedade de companhias.

A indústria publicitária já tinha desenvolvido outras tecnologias mais sofisticadas, mas as tatuagens publicitárias que o Corvo fazia eram particularmente atraentes e eram uma forma segura das companhias expandirem o seu repertório publicitário. Até partidos políticos usavam os seus aderentes como anúncios ambulantes. 

Um dos requisitos deste modo de fazer pela vida era o de ter uma pele saudável sem danos para que as películas aderissem facilmente. Quando a campanha publicitária acabava, novas películas eram aplicadas no espaço reservado a companhias específicas. Ora, o consumerismo era de tal modo implantado na vida das pessoas que a maior parte trabalhava exclusivamente para consumir e viviam rodeadas de uma poluição que perturbava a mente das pessoas mais sensíveis. Havia anúncios sonoros, anúncios visuais em todas as superfícies possíveis, até anúncios sensoriais quando se abria a porta de um estabelecimento comercial.

Acontece que num dia de chuva miudinha, a Gloria tropeçou numa pedra branca da calçada decorativa (daquelas que são as mais escorregadiças), e derrapou de corpo inteiro no pavimento molhado. As películas de acrílico, com a fricção, fundiram-se com a epiderme, as luzes ou desapareceram ou pareciam pirilampos enlouquecidos, e a Gloria ficou extensivamente ferida, com o braço direito partido, a sangrar. Por um momento parecia que tudo parou e que se fez silêncio. Mas não. As pessoas que passavam ao lado continuaram na busca das melhores compras, a publicidade continuou aos berros, e a Glória ficou estendida ao comprido da calçada com o corpo todo a doer.

Devagar e com lágrimas a caírem pela cara abaixo, ergueu-se solitariamente com dificuldade e, a pingar sangue no seu percurso, chegou ao largo da Matriz e, mais abaixo, encontrou um táxi coberto de publicidade que a levasse para o atelier do Corvo. Uma ambulância estava fora de questão porque isso era coisa de gente rica e ela não tinha dinheiro para ir para o hospital. Assim, depois de pagar ao táxi o valor de um dia de trabalho, dolorosamente a Glória entrou no atelier de tatuagem e pediu ajuda ao Corvo que a limpasse e retirasse as peliculas.

- Ó mulher! Deves estar doida para vires para aqui. Tens de ir mesmo para o hospital porque penso que vais precisar de um dermatologista. Tens as películas completamente entralhadas com a pele e não há nada que eu possa fazer. Tens o braço partido. Levo-te no meu carro. Vem comigo!

A Glória começou ao choro bem alto, a soluçar desesperadamente. O Corvo acalmou-a o melhor possível até ela poder falar com coerência.

- Não! Não posso ir para o hospital porque não tenho seguro nem dinheiro para lhes pagar. Ficarei a dever-lhes para o resto da minha vida.

- Não tens outro remédio porque a tua pele vai infetar e já está perdida de qualquer modo. Queres ficar deformada?

A Glória acabou por ir para o hospital onde levou o resto do dia a receber um desbridamento sem anestesia porque esta custava mais dinheiro. O braço foi constrangido numa tala e ela recebeu antibióticos orais. O Corvo regressou ao hospital para a levar a casa e cobrou-lhe um dia de trabalho pelos favores.

No quarto que ela partilhava com uma outra mulher que felizmente estava ausente, a Gloria estava em choque e mal se podia mexer. Ela fez uma áudio chamada para a mãe que vivia na Povoação e pediu encarecidamente se esta a podia vir buscar porque precisava de alguém que cuidasse dela. Enquanto esperava pela mãe, deitada de costas a olhar para o telhado, com o corpo dorido e a pele destruída, mesmo de janela fechada a Glória via a luz cintilante da publicidade vinda do lado oposto da rua. Era inescapável.